sábado, 18 de janeiro de 2014

Um deles

Um deles, sem o menor pudor
No meio-fio, no meio dos passantes
Urina virado para os carros
Um deles, com um boneco de plástico preso ao cabelo
Limpa os pés machucados
Numa poça de água suja
Um deles está pedindo dinheiro
E há quem reclame
“por que não vai trabalhar?”
Um deles bebeu demais
Adormeceu na esquina do bar
E não vai acordar tão cedo
Um deles roubou uma loja
Levou tudo o que podia
Inclusive um pote de manteiga
Um deles está preso
Porque matou um homem
E foi pego
Um deles estuprou uma mulher
E ameaçou repetir a dose com a irmã de um homem
Morreu empalado – e tiraram foto
Uma deles está grávida
E não tem dinheiro
Por isso expulsaram-na da lanchonete
Uma deles mora no morro
E trabalha limpando a casa (inclusive o vaso sanitário)
De famílias lá de baixo
Uma deles tem 13 anos
E foi estuprada
Mais de uma vez
Uma deles tem nove filhos sem pai
Mas deixa para a avó cuidar
Porque está lá fora dançando
Uma deles está no ônibus à noite
Fedendo a decomposição
Porque trabalha em um lixão
Uma deles queria ser médica
Mas morreu aos 16
Na fila do hospital
Uma deles não tinha emprego
Aceitou vender o corpo
Não tem carteira assinada
Um deles trabalha na Amazônia
E não sabe que o que faz
É desmatamento ilegal
Um deles tem 74 anos
Seu pai um dia foi à guerra
E nunca mais voltou
Um deles estuda em escola pública
E o teto está caindo
E não vai ter aula hoje
Um deles ganha um salário mínimo
E seu patrão diz que
“Bolsa Família sustenta vagabundo”
Uma deles terminou o ensino fundamental
Já perdeu a conta de quantos livros leu
Mas tem onze dentes faltando
Uma deles foi espancada pelo marido
E acredita sinceramente
Que ele bate porque ama
Uma deles vai todo dia à igreja
E dá seu dinheiro ao pastor
Porque Deus está olhando
Uma deles assiste à novela
Toda noite, no mesmo canal
E é sobre isso que conversa com as amigas
Um deles é filho de mãe solteira
Não sabe quem é o pai
Mas é melhor que nem saiba mesmo
Um deles foi educado pela violência
E vê nela o único caminho
Para conseguir o que quer
Um deles ainda tem 5 anos
Mas aos 15 terá um namorado
E será expulso de casa
Um deles é negro
E dá aula em escola particular
As pessoas ainda se surpreendem
Uma deles perdeu a virgindade
O vídeo está na internet
E ela, em outra cidade
Uma deles escuta os pais brigando
Toda noite – e repetiu de ano
Agora é o fracasso da família
Uma deles é gorda
Deseja arrancar seus excessos
E a cada noite faz um corte mais fundo
Uma deles ficou sozinha
Mesmo cercada de gente
Com pensamentos inflexíveis
Um deles tomou banho
E depois 30 comprimidos de Valium
Morreu sobre o vaso sanitário
Um deles foi alguém na vida
Só mais alguém
Infeliz
Um deles se apaixonou
Foi abandonado
E morreu de amor
Um deles era índio
Vivia em contato com a natureza
Foi expulso de casa por uma usina hidrelétrica
Uma deles era feliz
Tinha acabado a faculdade
Mas foi atropelada
Uma deles era amada
Mas sumiu
E até hoje é procurada
Uma deles, na escola
Não se encaixa
É motivo de piada
Uma deles só é feia
É igual a todas as outras
Só que feia
Um deles todo dia
Depois do almoço
Vomita de propósito
Um deles não quer mais levantar
Nem abrir a janela
Porque não vê motivo algum
Um deles se perdeu em contas
E impostos
E dívidas
Um deles teve tudo
Inclusive amor
Mas se esqueceu de preservar
Uma deles teve que esconder o nome
Na capa do próprio livro
Para atrair o público
Uma deles tinha um amigo
E quando o apresentou para o pai
Ele disse que não havia ninguém ali
Um deles
Um deles
Um desses humanos
Humanos que se esbarram
Pelos cantos, todo dia
Encaram-se na superfície
São os outros, não cada um
Mas cada um

É um deles

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Marcha Fúnebre

                Ronaldo não era muito inteligente aos 20 anos. Tinha virado motorista de rabecão porque foi o emprego que apareceu. O primeiro corpo que levou no carro era de um homem com pouco mais de cinquenta anos, barba por fazer, morto por ataque cardíaco. Foi difícil colocá-lo no compartimento de trás, já que ele era um pouco gordo; e mais difícil ainda teria sido conduzi-lo até o cemitério da forma convencional, sabendo que ninguém apareceria para vê-lo. Tocado pela solidão do morto, o motorista teve a ideia que mudaria sua vida: decidiu colocar um CD no rádio, deixá-lo tocando por todo o percurso e prestar sua própria homenagem ao desconhecido. A atitude tornou-se um hábito: Ronaldo passou a levar sempre aquele CD consigo. Quando tinha que dirigir, ligava o rádio e cantava junto.
Um dia, porém, parou para prestar atenção à letra de uma das canções e percebeu que era muito triste para ser a última música de alguém. Aposentou o CD e, com seu primeiro salário, foi a uma loja de música procurar um álbum adequado. Voltou para casa com três e escutou com atenção todas as letras para se certificar de que não haveria nada triste nelas. Sabendo ou não da história de vida e morte dos corpos, tocou os novos CDs por dois meses ou mais, até que um dia deixou de sentir que as velhas músicas preenchiam o vazio dos percursos. Bolou, então, sua estratégia: sempre que enjoasse de um CD, voltaria à loja e compraria mais.
Ronaldo costumava dizer entre amigos que “a primeira música difícil a gente nunca esquece”. Certa vez, enquanto levava um garoto magro de quinze anos, morto por overdose de heroína, tocou um CD novo. Estava um pouco relutante, porque na noite anterior, quando fizera sua avaliação rotineira da obra, não havia entendido uma palavra do significado da letra de uma das canções. O motorista se sentiu arrependido por não saber que tipo de emoção estava direcionando ao pobre menino e quando chegou a casa, escutou a tal da música seguidamente. Escreveu a letra num pedaço de papel que, depois de oito horas, estava cheio de anotações sobre possibilidades de significado.
Quando finalmente conseguiu interpretar o texto e aprovou-o como seguro, se prometeu nunca mais tocar nada que não entendesse. Comprou mais CDs e toda noite interpretava minuciosamente cada verso de pelo menos duas canções. Quando chegava ao trabalho, na manhã seguinte, e mandavam-no buscar mais um caixão, ele tentava descobrir tudo que podia sobre a pessoa que vivera no corpo que estava lá dentro. Quando conseguia, escolhia o que julgava ser a melhor opção de CD para deixar a alma feliz.
“Eu não sei pra onde vão as pessoas quando morrem”, dizia ele, “mas sei que a morte é uma parte importante da vida: é o final. E gosto de pensar que ajudei a fazer um final bonito”. Quando falava coisas assim, alguns amigos riam dele na mesa do bar, já um pouco bêbados. Ronaldo, então, pagava suas cervejas e ia para casa interpretar mais canções até cair no sono. Ele amava o que fazia, gostava das noites insones com ar de mistério, do som de violões, pianos, violinos, dos versos confusos e até dos dicionários que o ajudavam a entender palavras complicadas. Sem mesmo perceber, estava cometendo menos erros de português. Secretamente, escrevia poemas sem rima e sem métrica, e sonhava em entrar numa aula de piano. Mas tinha pouco tempo e pouco dinheiro, então era feliz tocando música para os mortos.
Sua mais tocante experiência de trabalho aconteceu quando, de surpresa, teve que carregar o corpo do melhor amigo. Ronaldo, tendo sido até convidado para o funeral, não hesitou em colocar no rádio um CD que ambos costumavam escutar juntos. Foi o caminho todo cantando, enquanto jurava escutar a voz do amigo. O que sentiu naquela viagem foi algo incompreensível. Quando chegou ao cemitério, em vez de lágrimas, teve de conter sorrisos. Fez até uma homenagem formal.
Com a positividade no auge, Ronaldo não tinha medo de morrer. Na verdade, não se importava em saber se havia algum lugar para ir quando a vida na Terra chegasse ao fim. Estava mais preocupado em viver da forma que gostava. Agora com sessenta anos, mesmo sem esposa ou filhos, não se arrependia de suas escolhas pessoais. Ele tinha quem o amasse: fizera muitos amigos durante sua vida, em lojas de música e nos shows aos quais, com muito esforço, conseguira ir. Lera muitos bons livros e até escrevera seus próprios.

Em sua última viagem, não houve música.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Ócio improdutivo


A internet caiu. Droga, terminei meu livro ontem! Se não tivesse lido até as 23h00min teria algo para fazer agora! Liguei a TV. Nada bom passando, todos os filmes no meio. Deixei-a ligada em um canal que apresentava um filme de qualidade duvidosa, mas com um nome legal, e ele se mostrou melhor do que o imaginado. Créditos. Deitei-me na poltrona, em uma tentativa de repor o sono que me faz tanta falta agora que estudo de manhã (mas que nem me passa pela cabeça em ebulição à noite). Nada além de um quase confortável momento de descanso. Desliguei a TV.
                11h27min. Tentei conectar mais uma vez o computador à internet. Sem acesso à rede. Após não sei quantos minutos de pura perda de tempo parada em frente ao roteador, desligando-o e ligando-o sucessivamente, decidi esquentar meu almoço. Trinta segundos no micro-ondas e a comida ainda estava gelada. Deixando-a mais trinta segundos girando ali dentro, abri a geladeira e coloquei um pouco de guaraná em um copo. Tirei o prato do micro-ondas e sentei-me no sofá da sala.
Liguei a televisão e tirei de um filme de ação clichê e cheio de efeitos especiais para colocar em um telejornal. Durante o almoço, sem prestar muita atenção à comida, fiquei me perguntando por que tantas pessoas reclamam desse jornal. Deve ser só muita desgraça junta. Só assisto mesmo porque tenho que me manter informada sobre o que acontece no mundo e por causa do ENEM. Não fosse por isso não me fariam falta tantas tragédias, estupros e barbaridades. Não gosto dessa realidade, com licença. Deixei a louça na mesa da sala e fui escovar os dentes.
Arrastei-me até meu quarto para pegar um livro de crônicas solicitado pela professora de literatura. Graças a Deus não é mais uma adaptação horrorosa de algum livro que eu tinha a intenção de ler. Joguei-me na poltrona da sala novamente e, abrindo o livro na minibiografia do autor, fiquei minimamente feliz por saber que ele era um cara de Copacabana nos anos 40.  Produto brasileiro, só pra variar um pouco. Li as três primeiras crônicas (muito boas por sinal), mas me distraí tentando contar quantas folhas o livro tinha só de olhar para ele fechado. Eram 56.
Abri a geladeira e procurei um chocolate. Não foi muito difícil de achar, já que ele estava embrulhado em um papel dourado enorme e nada discreto. Precisei de uma faca para tirar só um pedaço, que ainda veio quebrado. Guardei o resto na geladeira e comi minha parte sem muita animação. Não é disso que eu preciso! E, em meio ao ócio desnecessário, me rendi às frustrações emocionais de que, tão racionalmente, tento fugir a todo tempo. Corri para o quarto e deitei até que a crise passasse. Então lembrei: a internet caiu.


(Só postei isso aqui porque não tinha nada melhor escrito. É, tá chato, eu sei.)

sábado, 15 de dezembro de 2012

O menino da árvore

O mundo caminhava para seu fim (ao menos era o que acreditava a maioria); mas o menino sobre o qual devo falar estava sentado em uma árvore. Seus pés descalços estavam sujos e um pouco machucados por conta da escalada dos galhos, suas mãos seguravam um livro (de capa tão vermelha quanto o sangue) e seus olhos percorriam avidamente as letras impressas no papel quase branco. Seria muito pouco dizer que sua mente vagava pela fantasia, ou que seu coração batia junto ao dos personagens. Porque ler era muito mais que isso.

Como já mencionei, o mundo estava acabando. A cada dia, milhares de pessoas morriam atingidas por tiros, facadas ou palavras (que se você parar para pensar acabam sendo a mesma coisa). Era uma guerra onde só gritavam aqueles que não sentiam dor e quem se calava só teria a afirmar a desesperança. Mas não caia no erro de acreditar que aquele menino vivia na guerra: esse mundo estava logo abaixo dele.

E por isso ele lia. Nos livros havia as palavras que faltavam nas pessoas. Não só as palavras, mas os sonhos (ou o poder de acreditar neles). O menino lia, sonhava e pensava – seu mundo era cheio de vida. Às vezes, olhava para cima e ousava imaginar o que haveria em outros mundos. A cada vez que fazia isso, um universo se formava em sua alma. Seria mentira dizer que o mundo em apocalipse quase silencioso não o afetava – afinal, essa gente adora cortar árvores -, mas ele se mantinha ali, porque aquela árvore era tão forte quanto seu coração. Ele se preocupava com aquele mundo (até porque já vivera ali), mas sempre voltava para seu mundo de livros, onde tudo era melhor.

Apesar disso, ele não ficou ali para sempre. Um dia ele desceu da árvore. Eu seria muito idiota se dissesse que ele virou um adulto, porque ele só foi buscar uma caneta e um caderno. E com aqueles instrumentos, realizou grandes obras. Ele não conseguiu acabar com a guerra, mas fez algo tão importante quanto isso: deu um novo mundo a quem precisava de felicidade.

É, ele escreveu.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Domingo Sangrento


                As pegadas de Yuri, um menino de classe baixa de Petersburgo, marcavam a neve à medida que seus passos percorriam a calçada de uma rua estreita. Após uma longa caminhada ofegante, o menino de roupas manchadas chegou à sua casa, que estava de portas abertas para recebê-lo. Apoiou-se ao corrimão e subiu as escadas desgastadas para seu quarto. Em um dia normal, se incomodaria com o ruído assustador que os degraus faziam numa casa que era escura em qualquer parte do dia; mas, dessa vez, não percebeu som algum.

            Um fino feixe de luz passava pela fresta da janela fechada do quarto de Yuri, que a deixou fechada por mais que gostasse de ver a rua em frente coberta de neve como um quadro no único quarto bem iluminado da casa. Ao adentrá-lo, o menino fitou as paredes, encarou-as e esboçou um sorriso abobado e vazio.

“Senhor – Nós, operários residentes da cidade de São Petesburgo, de várias classes e condições sociais, nossas esposas, nossos filhos e nossos desamparados velhos pais, viemos a Vós, Senhor, para buscar justiça e proteção.”

            - Ah, que grande dia foi hoje! Eu e meus pais fomos até o castelo, – disse ele - com mais um monte de pessoas para entregar uma carta ao czar. Foi uma longa caminhada, mas todos estavam muito animados, porque iam receber mais tempo para descansar.

            Parando para respirar, o menino olhou para o chão, distraindo-se com uma aranha, mas voltou-se para a outra parede e continuou:

            - Nós fomos cantando muito felizes algumas músicas que o padre nos ensinou. E uma para o czar... Ele deve ter ficado satisfeito.

            Yuri calou-se mais uma vez porque não lembrava o que acontecera depois. Tentou reencontrar a memória em sua mente, mas logo desistiu, tirou o casaco e deitou-se na cama (que estava gelada devido à corrente de ar que vinha da fresta na janela). Cochilou durante um tempo e acordou com fome. Finalmente abriu a janela, sorriu novamente para uma das paredes e logo em seguida gargalhou, como se ela tivesse dito algo engraçado.

“Nós nos tornamos indigentes; estamos oprimidos e sobrecarregados de trabalho, além de nossas forças; não somos reconhecidos como seres humanos, mas tratados como escravos que devem suportar em silêncio seu amargo destino. Nós o temos suportado e estamos sendo empurrados mais e mais para as profundezas da miséria, injustiça e ignorância.”

            - Meu pai já deve voltar do trabalho com minha mãe. Espero que ela faça sopa hoje. Vou esperá-los.

            Não teve jantar naquela noite. Yuri também não percebeu a ausência dos pais por três dias. Ficou em seu quarto, falando sobre o que vivera, o que queria viver e sobre assuntos vazios sem sentido. Ele não percebeu o sangue que escorria de seu pé e muito menos o frio devastador que vinha da janela aberta. Quando encontraram seu corpo, uma semana depois, os vizinhos não conseguiram descobrir se a causa da morte foi o ferimento ou o ar gelado.

            A essa altura, a neve já cobrira as marcas de sangue que ele deixara na neve, mas ninguém duvidou do que havia acontecido. Afinal, todos os corpos baleados tinham sido retirados de perto do Palácio de Inverno muito recentemente. E a cena pavorosa da manifestação pacífica caindo ao chão, em meio a poças de sangue, ainda estava clara em muitas mentes.

“Estamos sendo tão sufocados pela justiça e lei arbitrária que não mais podemos respirar. Senhor, não temos mais forças! Nossas resistências estão no fim. Chegamos ao terrível momento em que é preferível a morte a prosseguir neste intolerável sofrimento.”

sábado, 27 de outubro de 2012

As cortinas azuis



As cortinas daquele quarto eram azuis claras, suaves como a mais leve nuvem no céu; e cobriam de forma mágica a porta da varanda, sem impedir que ela fosse vista. Pensar em tocar o tecido fino e transparente dava a impressão de pensar em tocar o Paraíso.

                Quem passava pela frente da casa notava primeiro as cortinas; depois o jardim, com suas orquídeas das mais diversas caindo pelas árvores em meio a roseiras. O branco não substancial sobre uma pintura provavelmente colorida na parede proporcionava alívio aos olhos e tranquilidade à mente. Então o sentimento de que anjos poderiam morar ali aumentava. Era quase impossível não parar o carro pelo menos uma vez na vida para observar a casa, após conhecê-la.

                Talvez anjos morassem mesmo lá. Uma menina de aparência tão bela e leve quanto a casa habitava o quarto das cortinas. Seu olhar era azul também, e transmitia a transparência e pureza de seu espírito. Ela era boa em fazer amigos e levava pouco tempo para eles virarem tão íntimos a ponto de conhecer a casa por dentro. Quando conheciam, começavam a lembrar anjos em algum traço de suas ações. Quando passavam a frequentar a casa, então, deixavam os outros felizes só por sorrirem.

                Aqueles sorrisos, aliás, eram obras de arte. Daquelas tão boas que fazem olhos de adultos brilharem como os de uma criança aprendendo a andar. E dessas obras de arte aquele pequeno mundo se alimentava, porque se precisa desse tipo de luz na vida. Todos que percebiam os sorrisos tinham a capacidade de iluminar uma cidade inteira, e a luz de só uma cidade teria o poder de preencher as trevas do mundo.

                É muito difícil acreditar nessas divagações abstratas sobre luz e felicidade, quando queremos acreditar que o mundo é frio e cruel. Vou contar uma coisa: é exatamente aí que entra a luz. Também é muito difícil para alguns admitir que parte do Paraíso se encontre na Terra.

E talvez seja por isso que é quase impossível que alguém sorria para um estranho, e mais ainda que um estranho tenha um sorriso retribuído. Se isso acontecesse, os corações seriam mais leves que nuvens, tenho certeza.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O mundo não é meu

Meu colchão geralmente fica colado na parede cinzenta, sob alguns lençóis amarelos e azuis, um pouco velhos.  Minha casa é diferente, tem até uma vista interessante para a rua. Observo os carros passarem e as pessoas conversarem sobre tudo, exibindo roupas belíssimas que desejo comprar um dia.

Há um rio aqui perto, não gosto de tomar banho nele porque odeio atrair olhares. As pessoas passam por minha casa e às vezes nem me notam, mas nunca gostam de mim quando notam. Algumas fazem questão de mostrar isso, olhando-me com reprovação ou desprezo, outras apenas olham-me fixamente, sem esboçar reação. Mas eu até aguento. Insuportável mesmo é quando elas olham com medo. Parece que acham que eu faria alguma maldade, quando tudo que mais quero é não ter que aguentar as maldades da vida. Sinto como se fosse culpa minha morar ali...

Meu pai sempre disse que eu tinha sorte por poder morar perto de um cruzamento movimentado - isso até ele morrer atropelado por um caminhão de refrigerante. Mas sorte é coisa que nunca tive. As pessoas gostam das crianças felizes e bonitas e não sou nenhum dos dois. Não sorrio, então não sorriem para mim. E não sorrio porque não sorriem para mim. Os guardas tentam me expulsar de casa, mal sabem eles que posso muito bem arrumar outra calçada e levar junto meu colchão e meus lençóis velhos. O problema é quando chove: é mais difícil achar lugares diferentes com marquise.

Não costumo ter raiva da vida, o que acontece é só uma vontade extrema de chorar. Chorar, gritar soluçar e ter alguém para me consolar e me deixar melhor – assim como as mães fazem após dizerem que não vão comprar tal brinquedo para seus filhos. Mas eu não tenho ninguém assim, então não choro. Prefiro me arriscar no mesmo cruzamento onde meu pai morreu porque em alguns dias eu consigo moedas e elas me deixam um pouco melhor, por algum tempo. Mas na verdade eu nunca estou exatamente bem.

Essas moedas, com a comida que representam, me dão uma ideia do que é estar feliz. Já ouvi alguns garotos de uniforme e homens de terno dizendo que dinheiro não traz felicidade... Mas a falta dele tira a felicidade. Esse tal de dinheiro marca as pessoas e é culpa dele se não gostam de mim. É culpa dele se passo a vida tentando me alimentar e me aquecer e me manter sem doenças (que mataram a minha mãe). É culpa dele se me machuco a cada vez que me olham. É culpa dele se não sei se prefiro lutar pela sobrevivência ou morrer logo. É tudo culpa dele!  E o mais angustiante é que este mundo aqui, onde eu vivo, pertence a ele.

Talvez eu não tenha casa mesmo...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Amigos de mesa


A mão esquerda segurava um lápis, que riscava a superfície da mesa. Aos poucos, a paisagem de uma praia em pleno pôr-do-sol ia aparecendo e a criadora do desenho se perdia nela. O sinal tocou, Giovanna guardou o material e saiu da sala. Finalmente a segunda-feira acabara!

 Na tarde seguinte, a menina entrou na sala de aula, jogou a mochila no chão, abriu-a, pegou seus livros e... Seu desenho continuava ali, e, para sua surpresa, acompanhado de um comentário (provavelmente de alguém do turno da manhã):

 Que lindo!

Giovanna sorriu e colocou seus livros na mesa, ao lado do desenho. Então pegou seu lápis e escreveu:

Obrigada.

Na quarta-feira, seu “obrigada” havia sido respondido, com um: Disponha, você merece.
Ela dessa vez deu uma risada contida e escreveu: Você não me conhece para saber se eu mereço, posso ser uma pessoa muito má.

Eu garanto que não é.

Você continua sem me conhecer.

Eles limpam as mesas às sextas.

Quando Giovanna olhou sua mesa na segunda seguinte, algumas palavras um pouco borradas enfeitavam a madeira.

Posso saber seu nome?

Sou só uma sonhadora. E você?

Sou só um louco.

Louco? Por quê?

Porque todos somos loucos.

E todos somos sonhadores.

Então você é uma sonhadora louca. Um dia descubro seu nome.

Será, louco sonhador?

Eles limpam as mesas às sextas.

E por muito tempo, os dois conversaram através das mesas. Giovanna ficava acordada até tarde pensando em qual seria a resposta do garoto e tentando imaginar como ele seria pessoalmente. Na segunda, como sempre, uma mensagem estava escrita na mesa.

O que você vai fazer no sábado?

Acho que nada. Por quê?

Curiosidade.

Então você é um louco sonhador curioso.

Com certeza.

Talvez eu vá ao cinema às 14h.

Que coincidência! Eu também!

Só porque eu vou, não é?

Eles limpam as mesas às sextas.

Giovanna colocou um vestido amarelo, um par de tênis e pegou sua bolsa. Seu tio a deixou no shopping e ela foi andando até o cinema. Como vou reconhecer o menino?, questionou-se. Olhou em volta e se sentiu uma idiota por não ter combinado nada direito. Sua sorte era que aquele era o único cinema da cidade.

Sentou-se em um banco em frente ao cinema. Seu olhar sonhador vagou pelo lugar e captou um menino loiro e alto de óculos. Em sua camisa havia algum desenho... Era uma praia, no pôr-do-sol. Giovanna caminhou até ele e disse:

– É você?

– Acredito que eu seja eu. E que você seja você – disse ele sorrindo.

– Seu louco!

– Louco sonhador!

– Adorei sua camisa.

– E eu adorei seus tênis.

Giovanna olhou para os tênis comuns e riu, olhando para o garoto. Ela se lembrou que ainda não sabia seu nome, mas ele foi mais rápido.

– Agora, acredito que queira me dizer o nome que seus pais escolheram para você.

– Giovanna, – disse ela, sorrindo, – e o seu?

– Pedro. Que filme você quer assistir?

Na segunda feira, Giovanna olhou para sua mesa. Um cinema estava desenhado, na tela havia um garoto e uma garota se abraçando; ao fundo, uma praia em pleno pôr-do-sol. E onde deveriam estar as legendas do filme havia uma simples mensagem:

Para a minha amiga de mesa...

domingo, 13 de novembro de 2011

Gadgets

Bom, gente, eu estava pensando em alguma coisa para deixar o blog legal, então decidi colocar alguns Gadgets. Comecei colocando alguns de frases de Harry Potter. Tem da Câmara Secreta, Prisioneiro de Azkaban, Cálice de Fogo, Ordem da Fênix e O Enigma do Príncipe. Depois encontrei um de regras do Death Note, que é um mangá que estou lendo. E coloquei ainda um de frases do John Lennon e um Pacman. O design ficou horrível, por isso, deixei todos os gadgets na parte de baixo do blog. Desculpem-me por esse pequeno problema, mas também tem alguns anúncios meio inúteis. Mas o que importa são as frases, então, se quiserem ler alguma, é só ir pro finalzinho do blog que elas estão lá. Se ficar muito ruim, avisem-me (sinto que ninguém nunca vai ler isso, mas td bem) para eu poder excluí-los.

Felicidade

Oi.Eu sei que fiquei um bom tempo sem escrever coisas não-melosas aqui. Mas estou tentando parar com isso. Porque eu ainda tenho muitas coisas para falar.

Tá, eu estou percebendo que algumas pessoas não se satisfazem com a própria felicidade. Elas ficam sempre procurando motivos para se colocar para baixo e, sinceramente, isso não leva a nada. Falo isso como alguém que era assim e que descobriu que é mais fácil não ser.

O que me fez pensar sobre isso aconteceu quinta feira. Meu professor de ciências pegou dengue e não pôde trabalhar, então tivemos aula com nosso ex-professor (que é muito bom). Como ele só tinha que entregar a prova (que eu gabaritei) para as pessoas, não havia muito o que falar, então ele começou a falar com a turma sobre profissões. Todos mencionavam profissões com altos salários (tipo o prático). Eu simplesmente disse que queria ser bióloga e, para minha surpresa, o professor disse que não valia a pena. Fiquei com aquelas palavras na cabeça e agora me arrependo por não ter respondido.

Sinceramente, eu sei que fazer biologia valeu a pena para ele. Se não tivesse valido, ele não seria tão bom dando aulas. Mas ele olhou as coisas por cima, como se o que realmente importasse fosse dinheiro. Mas, cara, eu não ligo para isso. Tudo bem que eu não quero ser pobre, mas também não preciso ser podre de rica. Quero ser feliz, só isso.

Aonde quero chegar é: quando você avalia a felicidade, você tem que avaliar só ela. Sem olhar por outros pontos de vista, por que a felicidade é sua e ninguém mais pode dizer se você é feliz ou não.

E não adianta se comparar com ninguém. Porque as pessoas só sabem se comparar e falar "ah, eu sou pior, estou triste". Sério, isso não vale a pena. Olhe a sua volta. Veja que você tem amigos e uma família que te ama (e se não tiver também, não importa, se procurar, você encontra).Não adianta ficar de braços cruzados se lamentando por coisas que nem existem.

Se você não entendeu nada do que eu escrevi aqui, só digo uma coisa: aproveite a felicidade. É o que vale a pena.

sábado, 12 de novembro de 2011

"Vou sentir sua falta"

  Ele olhou mais uma vez para a menina a dois metros e deu um sorriso confuso. “Vou sentir a falta dela”, pensou, e virou-se para trocar uma figurinha com seu amigo. Era o último dia de aula. Despedidas, lágrimas, sorrisos, ansiedade pelas férias... Tudo passava pela cabeça daquele menino, mas, entre um pensamento e outro, uma vozinha no coração dizia “vou sentir a falta dela”.

    Todas as crianças da turma relembravam o ano, e, a cada vez que ele encarava o rosto da menina, uma lembrança batia à porta de sua mente e ele a deixava entrar de bom grado. Afinal, eram ótimas recordações.

    Primeiro, uma pergunta, seguida de uma resposta. Depois uma conversa. O menino lembrou-se de como descobriu tantas coisas em comum com ela e de como se sentiu acolhido por isso. Brincadeiras, risadas, mais conversas, felicidade...

    A voz repetiu, novamente: “vou sentir a falta dela”.

    Tão rápido quanto começara, aquilo acabou. O menino nunca disse que sentiria falta, nunca chamou a menina para contar que sentia algo diferente por ela (e negou este fato), nunca a abraçou, nunca falou sobre se sentir tão bem ao seu lado. Ele guardou toda a admiração dentro do próprio coração e a deixou lá.

    O sinal do último tempo tocou e, aos poucos, todos foram indo embora. Ela deixou a sala, falando com todos e, sem saber, deixando para trás um garotinho apaixonado que nunca mais veria. E ela nunca teria a oportunidade de dizê-lo: “eu não sabia, mas senti a sua falta”.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Só pra avisar

Em breve postarei algo sobre professores e alunos. Por que minha vida pede isso. Só tenho que elaborar as críticas e argumentos. Preparem-se (isso se alguém lê essa coisa). Beijos.

A corredora

Corra, garotinha! Corra para longe!

Esqueça! A perfeição não existe, por mais que você pense que a encontrou. Não espere nada, não mostre seus sentimentos, não seja vulnerável, ou você vai acabar desesperada. Corra, fuja, procure um outro lugar, procure outras pessoas. Depois corra de novo.

Sua caminhada começou, parabéns. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Não olhe para trás. Isso vai te fazer sofrer e querer voltar. O passado pode ser muito mais atraente que essa estrada nebulosa e sombria onde você está, mas não desista. Você consegue!

Continue correndo, você não estará completamente sozinha. Fuja das mentiras e das ilusões. Corra!

Você vai querer voltar, é compreensível. Mas vai ser melhor? Você vai acabar voltando para os seus erros. Ou para os erros dos outros. Não cometa o erro de se expor de novo.

A caminhada te cansa? Seu corpo dói? Cure suas feridas e siga em frente. Ignore a chuva, ignore o frio, ignore o desconforto. Ignore suas lágrimas. Acredite, é para o seu bem.

Simplesmente corra. Não tenha medos. Prove-se para si mesma. Acredite nas suas palavras, faça suas leis, e caminhe com seus pés.

 Não pergunte aonde isso te levará. Forme suas respostas. Largue o relógio. Não espere sentada. Corra!

Talvez você veja um raio de sol brotando das nuvens. Talvez a parte boa do passado esteja no fim dessa estrada. Talvez o futuro te reserve um prêmio por sua caminhada. Talvez sintam a sua falta. Talvez precisem de você. Talvez façam questão de mostrar isso. Talvez você seja feliz.

Mas não conte com isso e faça o que é certo. Simplesmente corra.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Leitura e não-leitura

Essa coisa que eu escrevi era para uma aula de redação. Não ficou muito bom porque é uma dissertação e eu não sou muito boa com isso. Enfim, o assunto é interessante e eu acho que vale a pensa postar aqui (mesmo sabendo que no máximo três pessoas vão ler). Agora, sem enrolação, o texto é esse:



A leitura aumenta a percepção e a busca por respostas, por isso é essencial na formação de qualquer pessoa. Existem gêneros tão variados de livros que é impossível alguém não encontrar nenhum interessante.
                Apesar disso, muitos jovens dizem que não gostam de ler. Pode parecer uma simples questão de gosto ou escolha, mas as consequências vão muito além disso. Os jovens se limitam em seus pensamentos e assuntos e isso se tornou tão comum que poucos se importam.  Redações de escola são pesadelos para o não-leitor, porque só se adquire desenvoltura na escrita com a leitura. Treinar a escrita é muito importante porque isso facilita a capacidade de expressão. Mas os textos são feitos de qualquer forma, como se estivesse tudo bem; até o vestibular ou entrevistas de emprego, quando fazer de qualquer jeito é o mesmo que declarar a própria morte.
                Os jovens não-leitores são aqueles que nunca tiveram esse hábito, ou seja, para gostar de ler, é preciso ler desde sempre. Pela falta de leitura na infância, fica muito difícil acabar com o preconceito dos jovens contra os livros. A escola deveria cuidar desse problema e incentivar a leitura, mas essas tentativas nem sempre dão certo. Geralmente, os livros adotados pela escola não atraem o interesse dos alunos e são lidos de qualquer jeito.
                Qual poderia ser o antídoto para o veneno da não-leitura? Assim como todo antídoto, este está na base do problema. Os pais devem ler sempre para as crianças e deixá-las escolher os livros para ler quando aprenderem. Assim, a criança já vai saber seu gosto.
                Na escola, os livros são adotados para trabalhos e não lidos por prazer. Mas se os professores trabalhassem a história do livro, sem tentar conciliá-lo com a matéria, os jovens estariam mais familiarizados com a leitura. Por exemplo, um tempo por semana para discutir sobre os livros do bimestre seria bem dinâmico.
                É inegável que esse problema existe, mas com um pouquinho de esforço, é possível acabar com ele.

domingo, 4 de setembro de 2011

Medos

Eu tenho medo do escuro.

Tento nunca apagar as luzes, mas apago. Eu poderia me sentir atormentada à noite, entretanto, ela não é sinônimo de escuridão. Porque, enquanto me reviro nos lençóis, perdida em devaneios, a lua reflete seu brilho majestoso. Sua luz suave entra pela janela e me dá coragem para encarar a noite, fechar os olhos e descansar. É no quase-escuro que meus medos parecem desaparecer.

Eu tenho medo do futuro.

Prefiro viver no presente, baseando-me nele e somente nele. Acontecem alguns esbarrões com o passado, claro, mas logo eles se tornam o atual momento. Pensar no futuro é insuportável, porque só se é possível pensar em possibilidades. Existem inúmeras possibilidades desastrosas, e é nelas que minha mente se fixa. Então eu simplesmente vivo. No presente. E, antes que eu perceba, o futuro chega. Às vezes, como um grande presente.

Eu tenho medo das pessoas.

Elas são o maior motivo das minhas mágoas. De suas bocas saem as palavras que me atingem, as palavras que me derrubam e me machucam. Elas usam máscaras que me iludem e, quando caem, me reduzem ao patético. Mas amigos são pessoas e eles sempre estão comigo, sem máscaras e sem armas. E são indispensáveis.

Eu tenho medo das dúvidas.

Quero respostas. Por isso as busco, em meio às dúvidas. Esforço-me para me livrar da angústia dos casos incertos, das histórias mal-contadas. Porque eles me atormentam, me levam para baixo, me prendem a eles. Mas sem dúvidas, eu nunca encontraria nenhuma resposta.

Eu tenho medos.

E sou grata por isso.